Artigos
 
A Esquizofrenia da Sabiá

Peterson Barroso Simão
Desembargador do TJRJ e membro da AFL

Em manhã de primavera a sabiá cantava sistematicamente um lindo, mas melancólico hino.
Nenhum barulho era capaz de abafar o canto que saía de seu bico e que quase hipnotizava as pessoas que a ouvia.
O canto alto e reiterado foi chamando a atenção daqueles que passavam nas proximidades do bosque, os quais se sentavam para apreciá-lo calmamente.
Já não mais existiam bancos vazios quando chegou um velhinho com sua bengala e ficou mais perto do pássaro, que não se intimidou. Ao contrário, cantou mais forte, mais forte ainda.
Um jovem disse para todos que aquela sabiá era esquizofrênica, repetindo a cantarola a cada instante, não deixando que outros também cantassem. A pequena mata parecia ser somente dela.
Uma mulher manifestou-se dizendo que a Natureza era maravilhosa.
Muitos fizeram seus comentários inebriados pela audição, até que se pronunciou o idoso. Disse aquele senhor em idade provecta que ninguém estava interpretando corretamente o canto da sabiá. Na verdade, ela estava reclamando com sua riqueza sonora da tristeza de ver os rios transformarem-se em lama, das florestas desaparecerem, da matança indiscriminada dos animas, da falta de preservação da fauna e flora. Estava ela irresignada e, por isso, expressava-se daquela forma.
Seguindo este pensamento, qual seria o canto do brasileiro indignado com os fatos que ocupam as manchetes dos jornais?
Estamos bastante cansados. Viver em uma geração conflituosa traz enormes prejuízos. Os nossos problemas são mínimos quando comparados àqueles que são criados dolosamente pelos protagonistas das irresponsabilidades que afetam a população. E todos nós temos que suportar e sofrer com o negativo impacto até chegar a demorada solução.
Adotar o silêncio, neste momento, afigura-se atitude conformada.
Se o cidadão, ciente dos direitos e deveres concernentes à cidadania e democracia, clamar por ver e sentir a anormalidade que está ocorrendo, haverá a possibilidade de seguir a sabedoria e coragem desta sabiá.
Assim, vale a pena fazer uma profunda reflexão sobre o seu grito encantado.

topo