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Islamismo e terrorismo

João Baptista Herkenhoff

Os atentados ocorridos em Paris estão permitindo que se reacenda um sentimento de rejeição ao Islamismo.
Este sentimento contra o Islã, que algumas vozes pretendem semear, neste momento de pânico, é inaceitável.

Não se pode confundir fundamentalismo imbecil com a Fé Islâmica. Não se pode aceitar que criminosos, que devem ser presos, julgados e punidos, sejam apresentados como protótipos de uma religião, como não se pode aceitar que os corifeus da Inquisição sejam considerados símbolo do Cristianismo.

O Islamismo ensina que o homem é "representante de Deus". Prescreve a fraternidade. Adota a ideia da universalidade do gênero humano e de sua origem comum. Ensina a solidariedade para com os órfãos, os pobres, os viajantes, os mendigos, os homens fracos, as mulheres e as crianças. Define a supremacia da Justiça acima de quaisquer considerações. Prega a libertação dos escravos. Proclama a liberdade religiosa e o direito à educação. Condena a opressão e estatui o direito de rebelar-se contra ela. Estabelece a inviolabilidade da casa.

Há uma semelhança estreita entre a visão islâmica do ser humano (homem, vigário de Deus), a ideia cristã ensinada por Paulo Apóstolo (homem, templo de Deus) e a ideia de homem como imagem de Deus (Gênesis, livro sagrado de judeus e cristãos).

Mohammed Ferjani, em alentado estudo, nega que o Islamismo seja uma Religião obtusa e rejeita a tese de que caiba ao Ocidente a missão civilizatória.

Não escrevo esta página baseado apenas em pesquisas realizadas. Experimentei um mergulho pessoal que confirmou tudo que li. Refiro-me à participação num Colóquio Internacional Islâmico-Judaico-Cristão, ocorrido em Paris, uma das mais belas experiências que vivi.
Nesse colóquio pude partilhar com crentes das maiores religiões da Humanidade um projeto de mundo baseado na liberdade, na solidariedade e na Justiça. Não se tratou apenas de um intercâmbio intelectual mas de algo muito mais profundo, radicado no afeto, na compreensão recíproca, na comunhão. Nos momentos de oração todos juntos rezávamos páginas da Bíblia (livro sagrado de judeus e cristãos) e páginas do Alcorão. No abraço da Paz, desejávamos a paz uns aos outros: a Paz esteja com você; La Paix sur toi; Peace be with you; Alaikum As-Salaam.

A meu ver, esse mundo que naqueles dias centenas de homens e mulheres de boa vontade supuseram possível construir, a partir do respeito mútuo e do diálogo, está bem próximo da utopia humanista redentora do mundo.

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado, professor e escritor. E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com
Site: www.palestrantededireito.com.br

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