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(Hiper)consumismo e (Super)endividamento do consumidor brasileiro

Juiz Alexandre Chini 
Professor Diógenes Carvalho
 
Pode-se dizer que há relação direta do superendividamento com o hiperconsumismo, ambos são fenômenos mundiais que se alastram por todos os meios e vias na sociedade. O que se vê é uma questão comportamental vinculada ao status e à inserção social, atos repetidos que influenciam no estilo de vida dos homens. Se antes as pessoas lutavam com todas as forças para sobreviverem, agora, lutam para terem o luxo. O conforto somente não é suficiente, curioso porque até pouco tempo era idealizado por muitos. O que mais é preocupante e alarmante é que esse comportamento é modelo não só para a classe média e alta, mas, para a baixa também.
 
O consumo é realizado não apenas por uma necessidade imediata, mas pela massificação das publicidades atribuída aos veículos de comunicação social, que generalizam as informações e estimulam novas compras. Não ter o objeto de desejo acaba por desencadear operações furtivas levando os homens a terem pensamentos e sentimentos estranhos e incontroláveis, perdendo muitas vezes o princípio da realidade em prol do prazer e da satisfação que jamais se realizará, pois, o objeto de consumo sempre estará em uma ilha utópica. 
 
A cultura consumista é marcada por constantes pressões exigindo ao indivíduo que ele seja mais e mais e a aquisição de mercadorias passa por um filtro de extrema qualidade e requinte, o homem não deseja mais o que é mediano, é necessário também ter padrão de luxo. A mais valia tornou, na contemporaneidade, sinônimo de acúmulo de riquezas, nessa relação há algumas coisas fora de ordem, pois, correlato a esse novo padrão há o (hiper)consumismo. Assim, nos dias de hoje a palavra vem ganhando novos significados de grandiosidade, de desmedido e desenfreado, de maneira que até as ofertas tornam-se antigas rapidamente. 
 
O ato de fazer compras é uma das maneiras do indivíduo procurar por ele mesmo e por seu lugar no mundo. Uma explicação seria porquê fazer compras é essencialmente uma experiência íntima e pessoal. Comprar é pôr para fora a personalidade através de diversas possibilidades, enquanto se decide o que se precisa ou deseja. Comprar consciente é procurar internamente, através da memória e do desejo. Fazer compras é um processo interativo passível de diálogo não só com as pessoas, lugares e coisas, mas também com parte de si mesmo. 
 
Um processo dinâmico, reflexivo e revelador, capaz de dar forma. Nessa perspectiva se discute a compulsão por compras, além de discutir o fazer compras como um processo pelo qual os indivíduos resolvem o seu problema da identidade pessoal, ou seja, um processo de busca, uma atividade vital que vai muito além das associações tradicionais do comprar ou do ter, mas do ser. 
 
À medida que se vive numa cultura que adota uma “ontologia emocional” e, consequentemente, confere uma grande importância ao consumo buscamos a intensidade nas experiências e nos sentimentos. Assim, adquire-se a confiança de que necessitamos para superar a angústia existencial e se convencer de que de fato estamos "vivos”. 
 
Trata-se de uma necessidade psicológica que pode se satisfazer repetidas vezes. Contudo, é impossível que o mesmo estímulo produza em nós a mesma intensidade de reação da primeira vez, quando se expõe a eles uma segunda ou terceira vez. Consequentemente, precisa-se de exposições regulares a estímulos novos em decorrência dessa habituação, gerando o (hiper)consumo. 
 
Assim, a compreensão do superendividamento do consumidor prescinde de um estudo multidisciplinar, pois envolve o processamento de informação, que contempla: a análise das emoções; atitudes consumistas; memória; processos conscientes e inconscientes; escolha intertemporal; bem como, a teoria da cultura do consumidor, como a questão da identidade e a análise sociohistórica do consumo.
 
Deste modo, o fenômeno do superendividamento é extremamente complexo e tem produzido impactos e consequências de várias ordens, tanto na sociedade, na vida familiar, quanto nos relacionamentos interpessoais e conflitos intrapsíquicos. Todas essas consequências indicam uma grande desestruturação na vida de consumidores brasileiros, que necessita de uma urgente regulação estatal.
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